segunda-feira, 19 de junho de 2017

O que deu errado na luta por um meio ambiente equilibrado no Brasil?

UHE Belo Monte - Foto: PAC
Apesar de o Brasil ser admirado internacionalmente como um país que explora fontes renováveis de energia, considero essa admiração um despropósito. Nossa matriz é calcada em energias fósseis ou produzida por hidrelétricas, construídas em rios e regiões que jamais recuperaram a biodiversidade perdida, escreve Telma Monteiro, especialista em análise de processos de licenciamento ambiental, em artigo publicado por Correio da Cidadania, 17-06-2017.
Eis o artigo.

Não dá para pensar numa pauta Brasil sobre compromissos ambientais sem antes fazer uma breve retrospectiva de como surgiram as primeiras discussões internacionais sobre meio ambiente.

Primavera silenciosa
A partir de 1962, Rachel Carson produziu um estudo chamado Primavera Silenciosa, onde expôs a contaminação da cadeia alimentar por pesticidas nos EUA. Carson criticava o modelo do desenvolvimento econômico que impunha alterações ao ambiente ao exterminar espécies de insetos ou plantas. Pela primeira vez, na época, alguém teve coragem de tornar pública a contaminação e a vulnerabilidade do ambiente.

As gerações mais jovens, a partir desse momento que considero um marco, tomaram para si a responsabilidade de disseminar os prejuízos ao meio ambiente causados pela agroindústria e o uso indiscriminado dos, então, chamados “defensivos”. Junto vieram as questões da poluição urbana com o aumento do uso dos combustíveis fósseis.

Os limites do crescimento

Depois, em 1968, tivemos a Conferência de Paris, a Conferência Intergovernamental de Especialistas ou Conferência da Biosfera, calcada em bases científicas, organizada pela Unesco. Foi aí que surgiu o Clube de Roma, de cientistas, políticos e industriais preocupados com os rumos do crescimento econômico e com o uso crescente dos recursos naturais.

Clube de Roma produziu o relatório intitulado “Os limites do crescimento” que mostrou como nos cem anos a partir dali a Terra alcançaria um limite e haveria o declínio da capacidade industrial, econômica e social. No entanto, esse limite que poderia acontecer só em 2068, parece que já está começando agora, antes de 2020.

Com a previsão dramática contida no relatório do Clube de Roma, a Conferência de Estocolmo, em 1972, produziu outro documento em que constaram 26 princípios para fazer frente às preocupações com os impactos do crescimento e do desenvolvimento sobre o meio ambiente. Foi aí que surgiu uma visão mais clara da necessidade da proteção ambiental e do direito humano ao meio ambiente saudável.

Nosso destino comum
Em 1987, outro relatório, “Nosso Destino Comum”, reconheceu pela primeira vez a natureza global dos problemas ambientais. A expressão “desenvolvimento sustentável” foi cunhada, viria a ser um mantra mundial das organizações sociais e se tornou a estrela da Rio-92. Na Rio-92, mais de 100 países consolidariam a Conferência de Estocolmo, de 1972, de onde saíram os acordos como a Convenção sobre o Clima, a Convenção sobre a Biodiversidade, a Carta da Terra e a famosa Agenda 21.

Mas, algo deu errado porque, a meu ver, houve um processo de desmonte dos compromissos ambientais desde a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Rio-92. As forças dos ambientalistas até então estavam calcadas em uma espécie de militância, de ideologia ambiental em torno dos compromissos assumidos desde 1968. A luta se dava para conquistar a opinião pública sobre a importância da questão ambiental na preservação do planeta.

Na Rio-92 sentiu-se uma atuação menos contundente por parte das ONGs e a ascensão do protagonismo dos governos e empresas na pauta ambiental. Um bom disfarce para cooptar o chamado “terceiro setor” e grandes ONGs fortalecidas, até então, pelos ativistas, princípios ambientalistas e trabalho voluntário. Assim, começou a morrer a independência das organizações frente ao poder privado e ao poder público. Captar recursos passou a ser o fim e não o meio. O corpo a corpo de ambientalistas ativistas contra grandes monstros poluidores passou a ser uma lenda.

Essa é uma tese que há muito venho perseguindo e desenvolvendo. As organizações não governamentais do mundo inteiro mantiveram seus discursos, mas passaram a receber recursos financeiros de Estados e de fundações criadas pelas grandes empresas. A partir desse momento houve um derrame de dinheiro em projetos de preservação do meio ambiente, tocados pelas ONGs, para minimizar prejuízos às imagens institucionais duramente atingidas no processo de conscientização ambiental crescente, e que minava o lucro das empresas e a credibilidade dos Estados.

Foi nesse contexto que o Brasil, como país emergente, assumiu compromissos na Rio-92 que não poderia cumprir. Ao contrário das grandes potências que relutaram em promover as mudanças necessárias às emissões, o Brasil aceitou o seu quinhão de sacrifício.

Assim chegamos à Rio+20
Quando chegamos à Rio +20 a casa não estava arrumada e os exemplos cunhados na Rio-92 não produziram acertos e os erros não encontraram soluções.

Foi um grande momento esperado pela sociedade para saber como os seus governantes iriam alterar os rumos que conduzem às catástrofes climáticas. Mesmo com os erros se acumulando desde 1972 e apesar do mea culpa coletivo na Rio-92, não foi possível impedir a arrogância do homem sobre a natureza. As lições não foram suficientes.

Temo que a Rio + 20 tenha sido uma última oportunidade de impedir a humanidade de chegar ao ponto sem volta. A consciência ecológica e o respeito à natureza ainda não alcançaram a sociedade como um todo e nem os dirigentes das maiores nações do mundo. O Brasil continua sendo um grande exemplo mundial do descaso com o meio ambiente, do desrespeito pelas populações indígenas e com o atraso da mentalidade das elites políticas.

São ainda poucos os antigos militantes ambientais nas grandes ONGs, que aos poucos estão sendo substituídos por recém-formados mal remunerados em busca de experiência para chegar até as grandes empresas poluidoras. Lá se tornarão executivos engravatados para carimbar uma tarja verde e conceder credibilidade na “missão social” das empresas.
Que saudades eu sinto dos anos 1970, quando lutávamos por um ambiente melhor. Foi nessa época que eu forcei fisicamente um grande executivo de uma grande empresa poluidora chamada Vulcan a enfiar os seus lindos sapatos de couro italiano na lama que produzira uma das unidades em Mogi das Cruzes.
 
Lula assina contrato de Belo Monte na AGU em 26 de agosto de 2010
Foto: PAC
O que o Brasil poderia fazer?
Apesar de o Brasil ser admirado internacionalmente como um país que explora fontes renováveis de energia, considero essa admiração um despropósito. Nossa matriz é calcada em energias fósseis ou produzida por hidrelétricas, construídas em rios e regiões que jamais recuperaram a biodiversidade perdida. Artificialmente, muitos desses projetos tentaram criar projetos sociais para gerar emprego e renda sem considerar a perda ambiental das próximas gerações. Um tapa-buraco meia boca chamado banalmente de “compensação ambiental”.

O Brasil, no entanto, está ainda engatinhando no quesito energia eólica e solar, apesar de termos, como mostram estudos variados de cientistas brasileiros e internacionais, recursos fartos dessas duas fontes, tanto no Sul, como no Nordeste. Bons ventos não faltam neste país continental. Guarnecido de uma riqueza extraordinária em biodiversidade, ao Brasil caberia um papel de protagonista mundial no desenvolvimento e uso das energias limpas, realmente renováveis. Esse protagonismo mostraria ao mundo o que é possível fazer para salvá-lo da destruição e da miséria.

Poderíamos tornar o mundo muito melhor, se não estivéssemos direcionando toda nossa energia emocional para combater a corrupção e a miséria resultante, que esfacelaram o Estado. Ainda vai levar muito tempo para juntar os cacos.

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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Um golpe chamado Belo Monte - Parte 3

Obras de Belo Monte em janeiro de 2016 - Imagem do PAC
Telma Monteiro

O TCU fez uma auditoria no final de 2016 e constatou como a Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Eletrobras deram um golpe para faturar Belo Monte. O TCU identificou, em auditoria, sobrepreço no valor de R$ 3,384 bilhões. 

Nesta Parte 3, a auditoria do TCU identificou uma tramoia entre a Norte Energia e o consórcio construtor CCBM, com as empresas projetistas, para "otimizar" os custos com o objetivo de elevá-los. 

Como as grandes empreiteiras abocanharam as obras de Belo Monte

Em fevereiro de 2011, a Norte Energia assinou contrato de construção das obras civis de Belo Monte. As empreiteiras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Galvão Engenharia, Contern, Cetenco, Serveg-Civilsan e J. Malucelli formaram o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM). Ou seja, todas as construtoras aptas do país para construir uma hidrelétrica do porte de Belo Monte dividiram o trecho, sem que houvesse qualquer concorrência. Todas ganhariam seu quinhão.

Sem sobrepreço não haveria dinheiro para a propina. A única forma de ter sobrepreço e superfaturamento seria juntar todas as empreiteiras para repartir o bolo. As construtoras que estavam no consórcio original do leilão saíram para compor o consórcio construtor. Alguma dúvida de que houve uma conspiração para abocanhar as obras civis do maior projeto do Brasil sob os auspícios do governo e suas estatais?

A relação entre as empresas antes, durante e depois do leilão, com a Eletrobras e suas subsidiárias se confirmaria promíscua. Foi uma armação bem engendrada onde todas tinham uma participação no leilão, fosse no consórcio perdedor ou no vencedor, ou na elaboração dos estudos ou na sua revisão. Todas foram contempladas no contrato das obras civis. Faltou a concorrência, prática saudável para que os preços dos serviços fossem satisfatórios para a sociedade.

O relatório do TCU menciona:
 “a possibilidade de ter ocorrido comportamento oportunista por parte dos controladores do consórcio construtor. Tal risco se potencializa pela existência de comprovados esquemas de corrupção com propinas e sobrepreços envolvendo construtoras envolvidas na Operação Lava Jato e contratas por essa SPE.”

Fica óbvio que daí resultaram preços nada vantajosos para o consórcio Norte Energia, que levaria prejuízos às estatais do grupo Eletrobras. As construções das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, apresentaram o modus operandi semelhante. A tabela da auditoria do TCU mostra como os três maiores empreendimentos do setor guardam similaridades.


Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, reforça o TCU, se alternaram em Santo Antônio, Jirau e Belo Monte. 

A participação das empresas projetistas para que as empreiteiras ganhassem mais

As empresas contratadas para a elaboração do projeto básico de Belo Monte foram Engevix, Intertechne e PCE – Projetos e Consultorias de Engenharia. Elas teriam como objetivo fazer alterações no projeto visando a otimização das estruturas e com isso a redução dos custos.

Não foi exatamente o que aconteceu, no entanto. A tal otimização não passou de um projeto que aumentou os quantitativos e os custos já previstos antes do leilão. A Aneel, que havia aprovado os custos anteriormente, pediu uma revisão, por outras empresas, que pudesse apresentar melhoria nas soluções técnicas.

As empresas Themag, Arcadis Logos S.A., Engecorps Engenharia e Concremat foram contratadas, então. Mas, como também essas empresas já estavam atuando na engenharia e a Themag e Arcadis participaram dos estudos anteriores, passaram a ser revisoras de seus próprios trabalhos.

O resultado é que a Norte Energia, dona de Belo Monte, firmou um contrato com o consórcio construtor CCBM onde estipulava que os benefícios econômicos obtidos com a otimização seriam repartidos entre as partes, 50% para cada uma. Ou seja, os custos, na realidade não baixariam com a otimização. Ocorreria um superdimensionamento de quantitativos para aumentar os ganhos na execução das obras.

Otimizar, sim, mas para elevar os custos. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Um golpe chamado Belo Monte – Parte 2

Imagem: PAC
O TCU fez uma auditoria no final de 2016 e constatou como a Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Eletrobras deram um golpe para faturar Belo Monte.

O ministro do TCU, José Mucio Monteiro, define como uma “história trágica” a divulgação dos fatos contidos no relatório de auditoria.
Telma Monteiro

Uma “história trágica”

O objetivo da auditoria do TCU foi o de aferir o quão efetivos seriam os controles da estatal Eletrobras sobre os investimentos e contratos firmados para construir a hidrelétrica Belo Monte. Contratos, diga-se de passagem, financiados pelo BNDES a juros subsidiados. Considera-se que houve um desvio de finalidade da participação da Eletrobras no consórcio de Belo Monte

No caso do consórcio vencedor do leilão de Belo Monte, a Eletrobras atuou como empreendedor da Norte Energia e não como acionista, comprova a auditoria. A Eletrobras seria a própria Norte Energia. Sua atividade de fomento, como grupo estatal participante de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), não estava sendo exercida. A Eletrobras e as subsidiárias Chesf e Eletronorte que deveriam se ater à atuação técnica e à supervisão dos recursos investidos, dominavam um negócio.

“A predominância das atividades do grupo estatal na Norte Energia resulta na capacidade de comando das principais atividades da empresa - estruturação, implantação, operação, e exploração da UHE de Belo Monte – mesmo sem a estatal possuir a titularidade da maioria dos direitos de voto em assembleia de acionistas. Por conseguinte, considera-se que há fortes indicativos de desvio de finalidade dessa participação, diante do exercício do controle de fato do grupo Eletrobras além de sua atuação como acionista empreendedor – não se vislumbrando, com base na situação fática verificada, atividade de fomento pela atuação do grupo Eletrobras no âmbito da Norte Energia.” (Grifo meu)

Os já comprovados esquemas de corrupção, como demonstra a Operação Lava Jato, envolve as mesmas empreiteiras contratadas pela Norte Energia.

O ministro do TCU, José Mucio Monteiro, conforme notícia divulgada pelo website Contas Abertas, confirmou que o sobrepreço calculado pelo auditoria na análise do segundo aditivo do contrato para construção de Belo Monte é de R$ 3,384 bilhões. Esclarece que foram detectados preços unitários acima do mercado e itens inconsistentes ou injustificados tecnicamente. O ministro define como uma “história trágica” a divulgação dos fatos contidos no relatório.

Os “sócios”

A Eletrobras, Eletronorte e Chesf detém 49,98% da SPE Norte Energia. Ao todo são 18 empresas participantes.   

Inicialmente a Sociedade de Propósito Específico (SPE) foi formada pelos sócios, considerados “estratégicos”, como Eletrobras e Eletronorte e de fundações de seguridade social de empresas estatais – Fundação Petrobras (PETROS) e Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF).  Na fase do leilão, a participação das empreiteiras foi 40% e quando chegou na constituição da SPE baixou para 12,27%.

A Norte Energia S/A está hoje com um número maior de empresas estatais ou com grande influência no Estado. Quem venceu o leilão, na maioria, não integra o consórcio, outras que não venceram o leilão passaram a fazer parte da SPE. As tabelas abaixo mostram as participações.

Tabela do Relatório de Auditoria do TCU

Tabela do Relatório de Auditoria do TCU
A Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht articularam para dominar a contratação das obras civis. Houve uma orquestração das três “irmãs” para que pudessem dominar os estudos de viabilidade e as revisões, influenciar na formação dos consórcios participantes do leilão e formalizar acordos que levaram aos esquemas de corrupção.

Quanto aos investimentos, tanto os aportes (com custos subsidiados) do BNDES como os das estatais poderiam resultar em prejuízos graças ao controle deficiente na gestão de contratos.

Continua



terça-feira, 25 de abril de 2017

Um golpe chamado Belo Monte – Parte I

Imagem PAC
O TCU fez uma auditoria no final de 2016 e constatou como a Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Eletrobras deram um golpe para faturar Belo Monte.

Constatou-se também que um pequeno grupo de empresas que participaram nas diversas fase dos estudos de Belo Monte acabaram por esvaziar a concorrência no leilão. Isso permitiu um ambiente de acordos e associações que prejudicaram a concorrência pública.

Telma Monteiro

Finalmente, em 17 de novembro de 2016 o Tribunal de Contas da União (TCU) reconheceu em relatório de auditoria um superfaturamento de R$ 3,2 bilhões na construção da hidrelétrica Belo Monte, no rio Xingu. Demonstrou, também, as irregularidades desde a concepção do empreendimento. A notícia, postada no site do próprio TCU, aponta sobrepreço no processo de Belo Monte, constatado num relatório de 121 páginas, ao qual tive acesso. A Eletrobras, maior acionista, e a Norte Energia, consórcio responsável por Belo Monte, conseguiram criar muitas dificuldades na tentativa de inibir essa auditoria, inclusive não disponibilizando os arquivos editáveis para os auditores do TCU.

Ainda não apareceu na Lava Jato, em delações premiadas, toda a falcatrua que cercou Belo Monte, como o que está demonstrado no relatório de auditoria do TCU. Belo Monte pode ser o maior exemplo da história de uma única obra com sobrepreço e superfaturamento desse vulto, envolvendo uma ligação sórdida entre as maiores empreiteiras do país e as estatais Eletrobras e suas subsidiárias.
O TCU começou a analisar o processo de Belo Monte, pela primeira vez, em 2009. Ainda, em fevereiro de 2010, o Acórdão nº131/2010-Plenário do TCU encaminhou determinações e recomendações à Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Foi a partir daí que os custos de construção de Belo Monte sofreram alterações e ultrapassaram R$ 19 bilhões. Agora, com a auditoria, ficou claro como isso foi possível.

A auditoria

O relatório do TCU faz uma análise de todo o processo de Belo Monte desde os primórdios da concepção do projeto.  A auditoria feita pelo TCU sobre o processo da hidrelétrica Belo Monte concluiu pela materialidade, relevância e riscos da participação do grupo Eletrobras na Sociedade de Propósito Específico Norte Energia, responsável pela implantação da UHE Belo Monte.  A fiscalização foi necessária, ainda segundo o relatório, para evidenciar a possibilidade de superavaliação de investimentos na construção da hidrelétrica.

Foram identificadas, graças às técnicas aplicadas na auditoria, falhas no leilão de Belo Monte, desvio de finalidade na participação da Eletrobras no consórcio Norte Energia, vencedor do leilão e responsável pela implantação de Belo Monte, falta de transparência no contrato de obras civis, sonegação de informações no curso da auditoria, inconsistências em aditivo de contrato das obras, e superavaliação e superfaturamento no contrato de obras civis.

Constatou-se também que um pequeno grupo de empresas que participaram nas diversas fase dos estudos de Belo Monte acabaram por esvaziar a concorrência no leilão. Isso permitiu um ambiente de acordos e associações que prejudicaram a concorrência pública.

A Eletrobras se associou às empreiteiras Camargo Corrêa, Norberto Odebrecht e Andrade Gutierrez, em 2005, para a complementação dos estudos de Belo Monte. Nesse ponto se juntaram ao grupo de empreiteiras, empresas satélites que gravitaram em torno do projeto, para dar andamento aos estudos de viabilidade. Nesse universo restrito estiveram Engevix Engenharia S.A., Themag Engenharia e Gerenciamento Ltda, Intertechne Consultores Associados S/C Ltda e Arcadis Tetraplan S.A., só para citar algumas.

O leilão

Com os estudos de viabilidade concluídos em 2009 e com o aceite da Aneel, o projeto de Belo Monte foi a leilão em 20 de abril de 2010. Detentoras das informações e conhecimento aprofundado dos estudos, as empresas estatais e privadas acabaram por se tornar mais competitivas e aptas a participarem do leilão. Informação é poder e poder é faturar mais. 

Os riscos e fragilidades foram observados pelos auditores do TCU, tais como dados desatualizados; leilão tumultuado; ações judiciais sobre aspectos ambientais; prazos mínimos entre os diversos eventos, com mudanças de última hora; indefinição dos custos; e mais e mais indefinições que criaram dúvidas entre os competidores.

Chama atenção fatos que passaram desapercebidos, na época, e que só foi possível enxergar agora graças à auditoria do TCU. Os Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) foram aprovados pela Aneel apenas um mês antes do leilão; os custos dos programas de desenvolvimento sustentável da região do Xingu, impactada pelo empreendimento, ainda eram indefinidos; aconteceram alterações de última hora, tanto no projeto como no financiamento das obras; havia claro descontentamento entre os potenciais participantes do leilão que mal tiveram acesso aos estudos de viabilidade, o que praticamente inviabilizava a competição.

Dois consórcios formados pela Eletrobras e suas subsidiárias acabaram concorrendo ao leilão com vantagem, pois tinham conhecimento aprofundado e tempo para estudar o projeto da maior obra do país. Informações privilegiadas garantiam ao poder público, representado por Eletrobras e Eletronorte, o resultado do leilão a seu favor.

A formação do consórcio construtor

Ficou nítido, após o leilão, que havia arranjos de interesses das empresas que estavam envolvidas antes dele. Inicialmente, o consórcio vencedor era formado por 18 empresas entre as quais, estrategicamente, estavam a Eletrobras e a Eletronorte. Após a assinatura do Contrato de Concessão, as empreiteiras saíram do consórcio e migraram para o consórcio construtor. O consórcio construtor foi formado com essas e com empresas que participaram do outro consórcio perdedor do leilão.

O contrato para construção de Belo Monte foi, assim, assinado pela Norte Energia e o consórcio construtor. O valor inicial era de R$ 14 bilhões e o grupo de empreiteiras formado para executar as obras civis era liderado pela Andrade Gutierrrez (saída do grupo perdedor do leilão), acompanhada pela Camargo Corrêa e Odebrecht. As três “irmãs” que haviam elaborado os estudos de viabilidade, além daquelas que já participavam do grupo inicial vencedor do leilão.   

Com isso, as três grandes empreiteiras estavam com a faca e o queijo na mão: detinham todo o conhecimento da região onde construiriam Belo Monte, pois foram autoras de todos os estudos técnicos e dos projetos. Embora fora do empreendimento como investidoras, elas queriam é que o empreendimento saísse do papel. Afinal, Lula havia dito aos quatro ventos, antes do leilão, que no “bolo” havia espaço para todos.

Segundo o relatório da auditoria, a participação de todas as construtoras envolvidas, de uma forma ou de outra nos estudos de Belo Monte, acabaram por fazer parte do Consórcio Construtor (CCBM). Não havia dúvidas, portanto, que o objetivo primordial era fazer as obras de engenharia. Todas as construtoras brasileiras gabaritadas para fazer uma obra do porte de Belo Monte estavam presentes no CCBM, descartando uma necessária e saudável concorrência para a escolha do melhor custo benefício.

“789. Tais apontamentos corroboram a possibilidade de ter ocorrido acordos e acertos prévios com o fim de dar aparente competição ao leilão, manter o mesmo grupo de empresas projetistas e construtoras na elaboração dos projetos, na fiscalização e execução das obras, além de manter o grupo Eletrobras como grande empreendedor de fato da concessão.”

Parece bem claro que as empreiteiras que idealizaram, com a Eletrobras, o monstro no rio Xingu, sempre tiveram como único interesse, o de fazer a obra e faturar na frente, sem a responsabilidade de cumprir condicionantes ambientais, programas de mitigações ou defender ações na justiça. Espertamente, Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, deram um jeito de o leilão ser concretizado sem elas. Nos bastidores articularam a divisão do trecho.
Continua

sexta-feira, 24 de março de 2017

Satélites da Odebrecht

Foto: Rondoniagora
Crônica do dia, por Telma Monteiro

Doente? Rachado? Desfigurado? Combalido? Essas palavras ajudam a definir o Brasil hoje. Temos um Congresso contaminado pela corrupção e aliciado por grandes empresas.

Não estou falando só de grandes empreiteiras não. Lembremos que no rastro dessas empreiteiras vêm empresas fornecedoras de todos os tipos. Empresas satélites que gravitam em torno de grandes empreiteiras. Algumas internacionais, fabricantes de turbinas para hidrelétricas e acessórios, por exemplo.

Seria impossível a Odebrecht superfaturar obras sozinha, sem a cumplicidade de outras empresas. Sobrepreços e superfaturamentos são ferramentas necessárias, em toda a cadeia dos grandes empreendimentos, para alimentar o propinoduto. Tome-se como exemplo o consórcio Norte Energia, responsável pela hidrelétrica de Belo Monte, em construção no rio Xingu. Não daria para manipular os custos totais de R$ 16 bilhões e elevar para R$ 30 bilhões ou mais, sem a ajuda do consórcio construtor liderado pela Odebrecht, de fornecedores de mão de obra e de equipamentos.

Não dá para esquecer da Alstom, apenas para mencionar uma empresa, que tem uma história ligada à Odebrecht e às hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira. Ela já está envolvida no escândalo da Lava Jato e é investigada na Suíça. Em 2008, a Alstom “ganhou” o contrato para o fornecimento de equipamentos e das turbinas bulbo para as usinas do Madeira. Essa parceria exitosa avançou junto com as obras das grandes hidrelétricas na Amazônia.

Logo depois, em 2009, a Alstom também “ganhou” o contrato para construir a maior linha de transmissão do mundo com 2.300 quilômetros, que transportaria a energia das usinas do Madeira para o Sudeste. E, em 20011, mais uma vez, a empresa abocanhou novo contrato, para o fornecimento de equipamentos para a hidrelétrica Belo Monte, considerada a terceira maior do mundo. A fiel parceira Odebrecht esteve sempre presente.

Só mencionei, por enquanto, a parceria no setor de construção de hidrelétricas. Tem muito mais. Tem muitos outros satélites. 

Leia também:

quinta-feira, 9 de março de 2017

Florestas e cidades

Gado apreendido dentro da Flona Jamanxim, durante a operação Boi Pirata. Nelson Feitosa/Ibama

Crônica do dia, por Telma Monteiro

São Paulo é uma grande cidade. Quente. Já foi São Paulo da garoa. O ar parece uma cortina aquecida. Sair da mata para um mar de prédios áridos e tristes, fez-me refletir sobre algumas notícias recentes. Tem políticos que pretendem aprovar no Congresso Nacional um projeto de lei para revisar a criação, por Dilma Rousseff, de cinco unidades de conservação. Outra medida diz respeito à redução da Floresta Nacional do Jamanxim, na região do Tapajós, pela Medida Provisória de dezembro de 2016.

Estão tentando acabar com o pouco ou quase nada que Dilma fez em favor da biodiversidade. Será que o Brasil está fadado a regredir? Vejamos o que não regride: a sujeira da corrupção e das ruas; o descaso com a saúde pública; o descaso com a educação; o descaso com as populações indígenas; o descaso com os biomas brasileiros e com os rios. Só para citar alguns. A lista é muito grande.

Segundo o Imazon, a Flona do Jamanxim já perdeu 57% ou, para ilustrar melhor, o equivalente a duas vezes o tamanho da área metropolitana de São Paulo. Você entendeu agora o porquê de eu ligar a cidade de São Paulo ao despropósito de reduzir as florestas brasileiras?

Reduzir áreas de preservação é como voltar no tempo, para antes da Rio 92. Quem ainda se lembra da Rio 92? E da Agenda 21 Global? O programa de ação, assinado por 179 países, para promover o tal “desenvolvimento sustentável”. Ou “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

A Resolução 44/228 da ONU, que convocou a Conferência RIO-92, reconhece que “pobreza e degradação ambiental se encontram intimamente relacionadas” e, “se há uma síntese possível para este final de século, pode-se caracterizá-la como o esgotamento de um estilo de desenvolvimento que se mostrou ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”.
As “cortadas” nas unidades de conservação estão sendo feitas, que fique claro, sob a mais rigorosa legalidade: as alterações são por emendas parlamentares. Parlamentares que representam o povo no Congresso.

 O Brasil verde está sendo reduzido drasticamente. E todos os dias rasgamos os compromissos da Rio 92. Grandes e pequenas cidades do Brasil refletem o exemplo de São Paulo, incham, sob a desculpa do crescimento, na mesma proporção da destruição das matas que as circundam. Descaso com as populações que buscam moradia decente. Nada é planejado e tudo é improvisado. O uso do solo é administrado como as florestas: há leis para protegê-las, mas não se cumpre.


As consequências estão aí no cotidiano de chuvas torrenciais e localizadas cada vez mais impactantes na vida de milhões de brasileiros. A culpa é de São Pedro?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Bom para a França, ótimo para a Odebrecht, ruim para o Brasil. O caso submarino francês comprado pelo Brasil


Telma Monteiro

O acordo do governo brasileiro com a França incluiu a construção de quatro submarinos convencionais utilizando a já obsoleta tecnologia Scorpéne* e de um submarino de propulsão nuclear. A tecnologia ultrapassada do Scorpéne não é mais utilizada nem pela própria Marinha Francesa.

Numa rápida pesquisa na Internet é possível descobrir as informações sobre o acordo firmado entre Lula e Sarkozi e sacramentado em 7 de setembro, que vai além da transferência da tecnologia de submarinos. Ele inclui a construção e operação de uma base naval e de um estaleiro na Baia de Sepetiba, no Rio de Janeiro, pelo Consórcio Baia de Sepetiba formado por Odebrecht (50%), a estatal francesa Direction des Constructions Navales Services (DCNS) (49%) e a União (1%).

O pacote francês inclui a transferência da tecnologia de projeto do casco para o submarino nuclear brasileiro, que será montado também pela Odebrecht e DCNS; daí a necessidade de uma base naval e de um estaleiro. A Odebrecht mais uma vez evidencia sua estreita relação com o governo de Lula e Dilma Rousseff em concessões de energia, obras de infra-estrutura do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e, agora, em estratégias de defesa nacional.

Uma mal explicada política de proteção às reservas petrolíferas do pré-sal está sendo usada como pretexto para justificar todo esse aparato. Pior, numa clara demonstração megalômana de busca do poder, o presidente Lula pretende transformar o Brasil em potência e líder mundial. Nas entrelinhas do acordo com a França está a pretensão de ingresso do Brasil no clube seleto da independência nuclear.

Não é brincadeira não! Na contramão da história aos moldes do “Brasil Grande” o governo pretende construir e futuramente vender submarinos com propulsão nuclear. E isso irá custar aos cofres do tesouro 6,8 bilhões de euros, cerca de 22 bilhões de reais, dez vezes o preço proposto pela empresa concorrente alemã. Esse é o pacote da Marinha, embora a compra de helicópteros e caças franceses esteja em primeiro plano nos discursos do governo e na mídia. É cortina de fumaça.

O governo brasileiro está fechando o negócio bilionário mesmo com sobrepreço. Lula não consultou ninguém e o Senado já aprovou os recursos do tesouro necessários para concretizar o acordo, sem maiores problemas. O pacote proposto por Sarkozi traz como brinde a promessa do presidente francês de ajudar o Brasil a obter um assento no Conselho de Segurança da ONU e a participar de um futuro G-7 ampliado.

O estaleiro e a base naval de 980 mil metros quadrados tem o custo estimado em 1,8 bilhão de euros, cerca de 4 bilhões de reais, e nem estava nos planos da Marinha. A Odebrecht foi “escolhida” pelos franceses numa manobra que isentou o governo brasileiro e a Marinha de possíveis questionamentos futuros sobre a ausência de processo licitatório.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim é a figura chave dessa transação. Até agora não há explicações sobre os critérios e parâmetros de escolha que determinaram e orientaram o documento final do acordo. Convencional ou nuclear, quantos ou quanto, quando ou como? E a pergunta mais importante: por quê?

São muitas as teorias conspiratórias que pululam no Ministério da Defesa sobre as ameaças às reservas petrolíferas do pré-sal. Seriam cômicas, se não fossem trágicas. Uma apresentação de Jobim, no Ministério da Defesa, que explica a aquisição dos submarinos, mostra slides de recortes de jornais e revistas com notícias da Guerra das Malvinas, em 1982. Isso mesmo, as matérias revelam como os ingleses foram eficientes graças ao uso de submarinos contra os argentinos!

Parece que o ministro tem conhecimento de ameaças e espera um ataque às riquezas do pré-sal. Ou será que Sarkozi precisa de uma base estratégica na América do Sul, em especial no Brasil, que faz divisa com a Guiana Francesa, considerada território francês?(TM)

Fontes: Perspectiva Política / Ministério da Defesa

 *Denúncia feita por mim em 2009